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DIA A DIA

Cirurgia devolve ereção a operados de câncer de próstata
24/03/2002 - Gustavo Schor/Reuters

Uma técnica inovadora, realizada apenas no Brasil e nos Estados Unidos, já torna o fantasma da retirada do tumor de próstata menos assustador.

Uma microcirurgia para implantar um nervo extraído da batata da perna no lugar dos nervos cavernosos do pênis removidos é capaz de devolver até 100 por cento da ereção natural.

Quase um terço dos casos de tumores malignos na próstata atinge os nervos cavernosos, responsáveis pela ereção. Quando isso ocorre, a remoção desses nervos é praticamente inevitável.

No Brasil, cerca de 20.800 homens descobriram estar com câncer de próstata no ano passado. Segundo o Instituto Nacional do Câncer (Inca), do Ministério da Saúde, autor da estimativa, esse é o quinto tumor maligno de maior incidência na população.

A primeira das três operações feitas no país para implantar o nervo foi realizada pelo urologista Álvaro Sarkis e o cirurgião plástico José Carlos Marques de Faria, do Hospital do Câncer de São Paulo, em novembro de 2000.

Mais de um ano após ter passado pela cirurgia, o mineiro José dos Reis Meireles Neto, de 55 anos, recobrou totalmente a potência sexual. "Tenho sensação praticamente idêntica à anterior ao implante, estou satisfeitíssimo", comenta.

Um mês depois de operado, Meireles já começava a ter ereções com auxílio de um medicamento para disfunção erétil, indicado para o processo de recuperação.

"Não era um enrijecimento completo, mas fiquei surpreso", relata. "No começo era incômodo, eu tinha incontinência urinária e precisava tomar o remédio sempre."

Atualmente, o professor aposentado raramente recorre à droga: "Reajo naturalmente aos estímulos sexuais, quase nunca preciso tomar."

Rubens Camargo, paulista de 61 anos, fez a cirurgia em julho de 2001 e, conforme define, já consegue ereções que chegam a 70 por cento da capacidade total.

Entretanto, prefere evitar a utilização de medicamento e diz que consegue manter relações sexuais mesmo sem usá-lo.

O homem tem dois feixes de nervos cavernosos, localizados ao lado da próstata. Meireles teve um dos nervos substituídos e Camargo, os dois. Quando apenas um dos feixes é reposto, a chance de recuperação é maior.

Nos EUA, onde o método foi desenvolvido, três casos de reimplante do par de nervos foram descritos. Em cinco meses, os americanos operados já tinham estímulos de ereção e um deles -- após 14 meses -- apresentou ereção plena.

TRILHO

O nervo sural, retirado da batata da perna do paciente, não substitui as funções do anterior, simplesmente funciona como um "trilho" para que o original se regenere. O implante impede que outros tecidos ocupem o espaço do antigo nervo. Com as extremidades ligadas pelo enxerto, o cavernoso cresce por dentro do sural.

São aproveitados cerca de 5 a 10 centímetros do nervo removido da perna, que tem em torno de 5 milímetros de espessura e vai do tornozelo ao joelho, para cada feixe do cavernoso substituído.

O urologista Álvaro Sarkis afirma que a técnica não é um avanço apenas para manter a qualidade de vida.

"Agora sabe-se que é possível devolver a ereção natural, então podemos retirar o nervo infiltrado pelo tumor sem peso na consciência, o que diminui as chances de se deixar resquícios do câncer", explica.

TESTE DO TEMPO

Ioannis Antonopoulos, coordenador do Centro de Próstata do Hospital das Clínicas de São Paulo, é mais cauteloso: "Qualquer técnica cirúrgica nova necessita do teste do tempo."

Antonopoulos lembra que ainda é pequeno o número de operações e que são muito recentes. "Só depois de realizadas mais cirurgias e do acompanhamento destes pacientes por alguns anos poderemos chegar a uma conclusão consistente sobre a real utilidade do método."

O motivo da dúvida de Antonopoulos é claro: se um dos feixes nervosos for preservado ainda existe possibilidade de ereção espontânea.

A impotência só é certa se ambos forem retirados, o que indica um estágio evoluído da doença. "Se um paciente tem um tumor tão avançado, a ponto de necessitar de ressecção dos dois lados da próstata, provavelmente não terá tempo de vida para se beneficiar dos enxertos neurais", comenta.

Apesar das dúvidas em relação à eficácia do método, a única consequência do reimplante é a perda parcial da sensibilidade do pé que recebia estímulos do nervo sural retirado.

"Só ficou uma leve dormência na lateral do pé esquerdo. Mas isso só quando presto atenção. Para quem poderia ficar impotente, é de dar risada."

O enxerto, feito após a remoção do tumor e durante o mesmo procedimento cirúrgico, não aumenta o risco da operação, que tem taxas de mortalidade inferiores a 0,5 por cento. Mas Sarkis ressalta que o implante só serve para ocupar o espaço do nervo removido, lesão intencionalmente causada pelo cirurgião.


  

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