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Maia anuncia pax com Temer, mas não se desculpa nem por agressão nem por ilegalidade. Não cola!

18/10/2017

Rodrigo Maia: ele está queimando o capital político que chegou a acumular nos últimos temos.

Ciclotimia não é uma característica apreciada pelo mercado de ideias que ele busca conquistar.

Ele anunciou ontem que tudo está bem com o presidente da República.

Não tenho dúvida de que Michel Temer atuou para apagar o incêndio.

A questão é saber quando Rodrigo Maia vai ficar de novo com vontade de tocar lira, não é?, pondo Roma para arder.

Nota à margem: sim, conheço a contraliteratura a respeito.

Nero era inocente.

O fogo em Roma começou por acidente, numa área pobre.

O imperador, ao contrário do que se diz, ajudou as vítimas, mas aproveitou o episódio para promover a reforma urbana da cidade, de que ele não gostava.

E acusou os cristãos.

Resultado: ficou com fama de incendiário.

Bem, se não tomar cuidado, Rodrigo vira o Nero da caricatura.

E cumpre indagar mais uma vez: o que ele quer.

Já chegou a ser um político de 235.111 votos, em 2006, o terceiro mais votado do seu Estado.

Nesta legislatura, obteve apenas 53.167, ficando em 29º lugar, desempenho de um vereador bem votado de capital.

A sua influência política na Câmara cresceu na contramão do voto popular, que não deixa de ser uma esperança no caso do político desconhecido ou um reconhecimento no caso do conhecido.

E não!

Não estou entre aqueles que magnificam esse critério.

Políticos de baixa votação podem ter uma atuação importante no Parlamento.

Essa era uma das razões por que eu era contra o Distritão.

E Maia se articulou bem, sobretudo com Eduardo Cunha, que foi quem mais apostou nos seus talentos, o que lhe garantiu a visibilidade necessária.

Maia anunciou que tudo está resolvido com Temer, mas não pediu desculpas a Eduardo Carnelós, advogado do presidente, que reagiu com a indignação necessária no caso da divulgação dos vídeos de Lúcio Funaro — que nem ele nem ninguém sabiam que estavam no site da Câmara.

É incrível que Maia não reconheça que aquela divulgação é ilegal, contrariando determinação expressa do relator do caso no STF, Edson Fachin, que, por sua vez, se limita a dizer que sigilosos são.

E para por aí.

Também Cármen Lúcia, corresponsável pela divulgação, se fecha em copas.

Maia não pode, ao anunciar a pax com o presidente, agir com desonestidade intelectual.

É mentira!

Carnelós não fez mea-culpa coisa nenhuma.

Disse apenas que, ao classificar de “criminoso” o vazamento, não buscou atingir, e não buscou mesmo!, o presidente da Câmara.

E, ora vejam!, evidenciando que pode estar perdendo o senso de ridículo, o parlamentar acusou a imprensa de confundir a defesa que ele faz da instituição — a Casa que preside (as aulas de Eduardo Cunha lhe fizeram bem!) — com desentendimentos com o presidente.

Afirmou:

“Vocês (imprensa) confundem a defesa da Câmara com conflito com o presidente Michel Temer. Quando entendo a Câmara e os servidores atacados, tenho que reagir pela instituição”.

Bem, eu não sou político e não tenho de engolir essa bobajada.

O sr. Rodrigo Maia ameaçou o presidente, sim!

E não foi apenas nesse episódio.

Já o havia feito antes, quando estava exercendo a interinidade.

Em entrevista, chegou a acusar Temer de participar de uma conspiração para derrubar Dilma.

O que querem dizer estas palavras:

“Daqui para frente vou, exclusivamente, cumprir meu papel institucional, presidir a sessão”?

Por que ele não aponta que trecho da nota do advogado agrediu os “servidores” ou a “instituição”.

Maia está se fingindo de Mamãe Gansa, mas cadê a ameaça aos filhotes?

Ah, sim: ele disse que decidiu adiar sua viagem ao Chile porque ausentar-se da Câmara no momento da votação na CCJ poderia dar a falsa impressão de que estaria dando de ombros para o caso.

Falsa impressão uma ova!

Tratar-se-ia precisamente disso.

Outra coisa:

Maia tem de parar de cobrar, publicamente, aplausos por não ter conspirado em julho, quando o presidente viajou para a reunião do G-20.

Em primeiro lugar, ele costeou o alambrado, sim, para lembrar expressão de personalidade que ele conheceu bem: Leonel Brizola — que foi chefe político de seu verdadeiro pai, Cesar Maia.

Em segundo lugar, buscar reconhecimento público por não ter sido golpista é uma forma de expressar arrependimento por não ter ajudado a dar o golpe.

Mais do que isso: é uma maneira enviesada de querer manter o não-golpeado como refém.

Não sei o que quer Rodrigo Maia.

Mas sei que, desta feita, ele foi além da conta na sua lira.

E queimou feio o seu filme mesmo entre aqueles que viam nele uma promessa.

Ou entra nos eixos ou vai ser um político com mais passado, nem tão espetacular assim, do que futuro.

Disse e repito: coragem e lealdade são dois valores, para mim, intransitivos.

O ataque a Carnelós foi covarde.

A sua atuação, em relação a Temer, tem sido desleal.

E pouco me importa se advogado e presidente acham isso ou não.

É o que eu acho.


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